quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Quando o voto deixa de ser escolha e se transforma em devoção

 O voto, que deveria nascer da análise e da cobrança, parece cada vez mais próximo da devoção. Entre a defesa incondicional de candidatos e a disputa política, o eleitor corre o risco de esquecer que nenhum representante está acima de perguntas, críticas e resultados.

Por Adriano Lourenço

O voto deveria ser uma escolha consciente, resultado da comparação entre ideias e da avaliação de quem já ocupou cargos públicos. No entanto, parte do eleitorado passou a tratar seus candidatos como se estivessem acima de críticas. Questionar tornou-se, para muitos, sinônimo de traição.

Enquanto a disputa entre grupos políticos domina as redes sociais, problemas que fazem parte da rotina da população continuam exigindo respostas. A segurança pública, a violência contra as mulheres, a falta de perspectivas para os jovens, as dificuldades na educação e a pressão sobre os serviços de saúde não podem ficar em segundo plano durante uma eleição.

Na saúde, por exemplo, unidades continuam enfrentando sobrecarga e pacientes aguardam consultas, exames e tratamento. Durante a pandemia da Covid-19, o país ampliou leitos e estruturas para enfrentar uma emergência. Passado aquele período, a pressão sobre parte da rede pública permaneceu e, em muitas situações, a população continua enfrentando a falta de vagas e a demora no atendimento.

O mesmo ocorre com a economia. O cidadão sente o aumento das despesas e acompanha discussões sobre dívida pública e gastos governamentais, mas esses temas nem sempre recebem a mesma atenção das disputas entre direita e esquerda.

Os debates deveriam ajudar a mudar esse cenário. São oportunidades para que candidatos apresentem propostas, respondam a questionamentos e expliquem como pretendem enfrentar os problemas do país. A ausência de candidatos desses encontros também precisa ser avaliada pelo eleitor.

É nesse ambiente que nomes fora da política tradicional começam a chamar atenção. Augusto Cury, conhecido por sua atuação como psiquiatra e escritor, passou a receber maior exposição ao entrar na disputa presidencial. Sua candidatura não deve ser tratada como garantia de mudança, assim como nenhuma trajetória política, por si só, garante competência administrativa. Todos precisam ser questionados e avaliados pelas propostas que apresentam.

O interesse por novos nomes, porém, pode revelar o desgaste de uma disputa concentrada sempre nos mesmos grupos. Mais do que procurar um salvador ou defender um político de forma incondicional, o eleitor precisa recuperar o direito — e a obrigação — de perguntar, comparar e cobrar.

O político eleito não recebe um voto de gratidão. Recebe uma responsabilidade. Saúde, educação, segurança e outros serviços públicos não são favores prestados à população, mas deveres de quem administra os recursos públicos.

O Brasil precisa de mudanças, mas elas não dependem apenas de novos candidatos ou novos discursos. Também dependem de uma mudança na postura do eleitor. Votar é escolher. Depois da eleição, é acompanhar e cobrar. Quando o voto se transforma em devoção, o debate perde espaço e a política deixa de servir ao cidadão.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Juros, endividamento e gastos públicos: o que os candidatos precisam explicar ao eleitor

 Com a aproximação da campanha eleitoral, candidatos à Presidência da República, aos governos dos estados e ao Distrito Federal deverão apresentar propostas para diferentes áreas. Entre elas, uma questão econômica merece atenção: quais medidas serão adotadas para reduzir o custo do crédito, enfrentar o endividamento das famílias, controlar os gastos públicos e administrar as dívidas dos governos?

Por Adriano Lourenço

A campanha eleitoral deverá colocar em debate temas como emprego, saúde, segurança e investimentos. Mas há outra questão que precisa ser apresentada de forma clara pelos candidatos à Presidência da República, aos governos estaduais e ao Distrito Federal: quais são as propostas para lidar com os juros, o endividamento das famílias e o equilíbrio das contas públicas?

O tema envolve duas situações diferentes, mas que fazem parte da economia do país. De um lado, estão as contas dos governos, com despesas, investimentos e dívidas. Do outro, estão as famílias que enfrentam dificuldades para manter os pagamentos em dia. 

Nos últimos 12 meses, o Brasil gastou R$ 1,16 trilhão com juros da dívida pública, segundo dados do Banco Central citados no estudo. O valor ajuda a dimensionar o peso dos encargos financeiros nas contas do país e reforça a discussão sobre as medidas que poderão ser apresentadas pelos candidatos para administrar o endividamento público e reduzir seus efeitos sobre a economia.

Entre elas estão a perda ou redução da renda, o aumento do custo de vida, o uso do crédito e a cobrança de juros. Quando os juros são elevados, o valor de uma dívida pode crescer rapidamente, principalmente nos casos de atraso.

Nos últimos anos, programas de renegociação buscaram oferecer condições para que consumidores com débitos em atraso pudessem reorganizar sua situação financeira. Essas iniciativas podem reduzir parcelas ou facilitar acordos, mas não eliminam, por si só, as causas que levam uma família a contrair novas dívidas.

Essa é uma das questões que precisa ser discutida durante a campanha: quais medidas poderão ajudar o cidadão a evitar um novo ciclo de endividamento depois de renegociar débitos anteriores?

Os candidatos precisam apresentar propostas relacionadas à renda, ao acesso ao crédito e ao custo dos financiamentos. Também será necessário explicar quais medidas pretendem adotar para controlar as despesas públicas e administrar o endividamento dos governos.

O debate sobre gastos públicos envolve escolhas. Governos precisam definir prioridades, manter serviços, realizar investimentos e cumprir obrigações. Ao mesmo tempo, precisam administrar suas receitas e despesas para evitar que o aumento da dívida comprometa recursos que poderiam ser destinados a outras áreas.

A carga tributária também deve fazer parte dessa discussão. Qualquer proposta de redução de impostos precisa ser acompanhada da explicação sobre como os governos manterão suas receitas e financiarão os serviços públicos. Da mesma forma, propostas de aumento de gastos precisam informar a origem dos recursos.

Por isso, o eleitor pode fazer perguntas objetivas aos candidatos: como pretendem reduzir o custo do crédito? Quais despesas públicas poderão ser revistas? Como pretendem administrar as dívidas dos governos? Há propostas para alterar a tributação sem comprometer a arrecadação necessária aos serviços públicos?

Não se trata apenas de anunciar programas ou prometer investimentos. A discussão exige informações sobre custos, prioridades e fontes de financiamento.

Juros, endividamento e gastos públicos são assuntos que afetam diretamente a economia e o orçamento das famílias. Por isso, a campanha eleitoral também precisa mostrar como os candidatos pretendem enfrentar esses problemas e quais serão os efeitos de suas propostas.

No fim, a principal pergunta permanece: qual é o caminho apresentado para equilibrar as contas públicas e, ao mesmo tempo, criar condições para que as famílias dependam menos de dívidas e tenham maior segurança financeira?

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Filhos, pais e o peso do sobrenome na política brasileira

 Filhos de presidentes e ex-presidentes voltam ao centro do debate político brasileiro, levantando questionamentos sobre influência, negócios, investigações e o peso que um sobrenome poderoso pode carregar. Entre as discussões envolvendo Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, permanece uma questão: até que ponto os filhos devem ser avaliados apenas por seus próprios atos e quando a influência política dos pais passa a fazer parte do debate público?

Por Adriano Lourenço

Na política brasileira, o sobrenome quase nunca é apenas uma identificação familiar. Ele pode abrir portas, garantir votos, preservar grupos políticos e manter tradições de poder. Mas também pode trazer cobranças, suspeitas e consequências que ultrapassam a trajetória individual de quem o carrega. É justamente nesse cenário que os filhos de alguns dos principais personagens da política nacional voltam ao centro do debate.

De um lado está Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Seu nome voltou a circular no debate político nacional em meio a questionamentos e citações relacionados a negócios e relações empresariais. O caso provoca uma discussão que não é nova: até onde vai a responsabilidade individual de um filho e em que momento o peso político do pai passa a transformar qualquer relação empresarial ou financeira em assunto de interesse público?

Essa discussão também não começou agora. Durante os governos anteriores de Lula, Lulinha já esteve no centro de questionamentos relacionados à sua evolução patrimonial e às suas relações empresariais. Investigações foram abertas, denúncias foram debatidas e seu nome passou a ser explorado politicamente por adversários do então presidente. Nem tudo o que foi levantado resultou em condenação, e esse é um ponto que precisa ser respeitado. Mas o simples fato de alguém ligado diretamente ao presidente da República aparecer repetidamente no centro de controvérsias demonstra como o parentesco, quando envolve poder, deixa de ser uma questão exclusivamente privada.

É impossível discutir esse tema sem lembrar que o próprio Lula construiu parte de sua trajetória política enfrentando acusações, investigações, processos e uma prisão que marcou profundamente a política brasileira. Ao longo dos anos, Lula foi condenado em processos da Operação Lava Jato, teve decisões posteriormente anuladas por questões relacionadas à competência da Justiça Federal de Curitiba e voltou à vida política, sendo novamente eleito presidente da República. A história mostra que, no Brasil, uma acusação pode produzir consequências políticas enormes mesmo quando, anos depois, o cenário jurídico muda.

Do outro lado da disputa política está a família Bolsonaro. Flávio Bolsonaro, senador e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, também construiu sua própria trajetória, mas jamais conseguiu se desvincular completamente do peso do sobrenome que carrega. O episódio das chamadas “rachadinhas”, investigado durante anos, colocou seu nome no centro do debate nacional e foi utilizado intensamente pela oposição como exemplo da contradição entre o discurso político da família e as práticas questionadas nos bastidores.

Mais uma vez, é necessário separar o julgamento político do julgamento judicial. Uma coisa é a investigação, outra é a denúncia e outra, completamente diferente, é uma condenação definitiva. Mas na política, muitas vezes, essa separação não existe. Basta uma investigação para transformar um nome em manchete. Basta uma suspeita para alimentar discursos. E basta um sobrenome conhecido para que qualquer episódio ganhe proporções nacionais.

É exatamente aí que Lula e Bolsonaro, apesar de representarem campos políticos opostos, se encontram em uma situação semelhante: ambos assistem seus filhos serem envolvidos, direta ou indiretamente, no debate sobre poder, patrimônio, negócios e influência política.

E talvez esteja aí uma das maiores contradições da política brasileira. Os grupos políticos gostam de atacar os filhos dos adversários, mas mudam completamente o discurso quando as suspeitas atingem os seus próprios familiares. Para um lado, qualquer investigação é prova suficiente. Para o outro, toda investigação é perseguição. Quando o alvo é o adversário, exige-se explicação imediata. Quando o nome envolvido pertence ao próprio grupo, pede-se cautela, presunção de inocência e respeito ao devido processo legal.

A verdade é que o eleitor também precisa aprender a fazer essa separação. Ninguém deve ser condenado simplesmente por ser filho de alguém. Mas também ninguém pode ser protegido de questionamentos apenas porque é filho de uma autoridade poderosa. O sobrenome não pode ser uma sentença antecipada, mas tampouco pode funcionar como escudo.

Filhos não são responsáveis automaticamente pelos erros dos pais. Pais também não podem ser responsabilizados sem provas pelos atos praticados por seus filhos. Mas quando famílias inteiras estão inseridas no centro do poder político, a exigência por transparência precisa ser ainda maior.

Lulinha não é Lula. Flávio Bolsonaro não é Jair Bolsonaro. Cada um deve responder individualmente por seus próprios atos, dentro dos limites da lei e com direito à defesa. Mas seria ingenuidade imaginar que, em uma democracia marcada por famílias políticas e sobrenomes que atravessam gerações, as relações entre pais, filhos, poder e influência não despertariam questionamentos.

No fim das contas, esse talvez seja o verdadeiro peso do sobrenome na política brasileira. Ele ajuda a conquistar espaço, facilita a construção de alianças e pode garantir visibilidade. Mas também transforma qualquer suspeita em um problema maior, porque quando um filho ocupa o noticiário, muitas vezes quem realmente entra no banco dos réus da opinião pública é toda a família que está por trás daquele nome.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Liberdade de imprensa: até onde pode ir o poder diante do jornalismo investigativo?

 O caso envolvendo o jornalista maranhense Luís Pablo e os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino reacendeu um debate que ultrapassa a disputa entre personagens: quais são os limites da atuação do Estado diante da imprensa e até onde pode avançar o jornalismo investigativo na apuração de informações envolvendo autoridades públicas?

Por Adriano Lourenço

Que país é esse? A pergunta volta a fazer sentido diante do episódio envolvendo o jornalista maranhense Luís Pablo, os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino. O jornalista publicou informações relacionadas ao uso de veículos oficiais por familiares de Dino e acabou envolvido em uma investigação que apura suposto monitoramento e divulgação indevida de informações relacionadas à segurança do ministro e de sua família. Luís Pablo nega ter monitorado Dino e afirma que apenas exerceu seu trabalho jornalístico, enquanto Moraes sustenta que existem indícios de práticas que precisam ser investigadas.

Até aqui, uma coisa precisa ser reconhecida: jornalista não está acima da lei. Se houver crime, acesso ilegal a informações protegidas ou qualquer outra irregularidade, é dever das autoridades investigar. O problema é outro: até onde pode avançar uma investigação quando ela alcança a fonte de um jornalista e pode produzir consequências sobre o exercício da própria imprensa?

A Constituição Federal garante a liberdade de expressão e de comunicação e assegura o acesso à informação, além do sigilo da fonte quando necessário ao exercício profissional. Não estamos falando de um privilégio concedido ao jornalista, mas de uma garantia destinada à sociedade. Afinal, o cidadão tem o direito de saber o que acontece dentro das instituições públicas e de conhecer os atos daqueles que exercem poder em seu nome.

O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros reforça essa responsabilidade. O documento estabelece que o direito à informação envolve informar, ser informado e ter acesso à informação, determina que o jornalista busque a verdade por meio da apuração precisa dos fatos e estabelece como dever profissional divulgar informações de interesse público, defender a liberdade de pensamento e expressão e preservar o sigilo da fonte. O próprio código chama atenção para outro perigo: a indução à autocensura.

E é justamente aqui que está o ponto central desse debate. Jornalismo investigativo não significa inventar, acusar sem provas ou publicar qualquer informação de qualquer maneira. Significa investigar, buscar documentos, ouvir os envolvidos, confrontar versões e levar ao conhecimento público aquilo que tenha relevância social. É por meio desse trabalho que muitas irregularidades envolvendo governos, empresas e autoridades chegam ao conhecimento da população.

Por isso, investigar uma autoridade não pode ser considerado, por si só, um ataque à autoridade. Quem ocupa uma função pública precisa compreender que seus atos estarão sujeitos à fiscalização da imprensa e da sociedade. O jornalista não julga e não condena; ele apura e informa. Se errar, deve responder pelo erro, garantir direito de resposta e corrigir a informação. Mas uma coisa é responsabilizar um jornalista por eventual crime; outra é criar um ambiente em que profissionais passem a pensar duas vezes antes de investigar alguém pelo tamanho do poder que essa pessoa possui.

E o debate ganhou um novo capítulo nesta semana. No STF, Alexandre de Moraes afirmou que a liberdade de imprensa não pode ser utilizada como instrumento para o cometimento de crimes. Flávio Dino, por sua vez, também afirmou que o sigilo da fonte não é um direito absoluto e defendeu uma rediscussão sobre a formação necessária para o exercício do jornalismo.

É preciso, portanto, encontrar o equilíbrio. A imprensa não pode ser irresponsável, mas o poder também não pode ser imune à fiscalização. E quanto maior for o poder de uma autoridade, maior deve ser a disposição para prestar contas à sociedade.

O próprio presidente do STF, Edson Fachin, reafirmou a importância da liberdade de imprensa e do sigilo da fonte ao comentar o caso, defendendo que eventuais ilícitos sejam investigados sem que isso atinja a atividade jornalística legítima. A manifestação mostra que o assunto ultrapassou o caso individual e chegou ao centro de uma discussão institucional dentro da própria Corte.

E talvez seja essa a pergunta que precisamos fazer neste momento: quem fiscaliza quem fiscaliza? Se um jornalista deixa de investigar porque teme as consequências de uma reportagem envolvendo uma autoridade poderosa, quem perde não é apenas a imprensa. Perde o cidadão, que depende da informação para acompanhar aquilo que acontece dentro das instituições que deveriam estar a serviço da sociedade.

Não se trata de ser contra Alexandre de Moraes, contra Flávio Dino ou contra o Supremo Tribunal Federal. Trata-se de defender uma regra que deveria valer para todos: autoridade pública precisa ser respeitada, mas também precisa ser fiscalizada. Jornalista precisa ser responsável, mas também precisa ter liberdade para investigar.

Porque liberdade de imprensa não é fazer tudo o que se quer. É poder cumprir uma função social sem medo de represália. E, se houve crime, que seja investigado e responsabilizado. Mas se houve apenas jornalismo, que a imprensa continue livre para perguntar, investigar e informar.

No fim, a pergunta permanece: que país é esse? Um país onde o poder pode ser questionado ou um país onde o jornalista começa a escolher suas pautas de acordo com o tamanho da autoridade que pretende investigar? A resposta interessa a todos nós, porque quando a imprensa perde a liberdade de fiscalizar o poder, é a sociedade que perde uma das suas principais formas de defesa.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Entre proteger a sociedade e arriscar a própria vida: será que vale a pena ser policial?

 Debate eleitoral sobre segurança precisa ir além de armas, viaturas e coletes: quem protege o policial que enfrenta o crime, enquanto facções avançam e o sistema muitas vezes devolve às ruas quem já passou pelas mãos da polícia?

Por Adriano Lourenço


Segurança pública foi um dos assuntos presentes no primeiro debate entre os candidatos ao Governo da Paraíba. E um dos discursos chamou atenção ao destacar uma polícia equipada, com armamentos, coletes balísticos, viaturas e estrutura para enfrentar a criminalidade.

Tudo isso é necessário.

Mas segurança pública não cabe apenas dentro de uma viatura.

Existe alguém dentro dela.

Existe o policial.

É ele quem entra na área de risco. É ele quem atende uma ocorrência enquanto outras pessoas tentam fugir dela. É ele quem trabalha durante a madrugada, enfrenta confrontos, recebe ameaças e convive diariamente com a possibilidade de não voltar para casa.

E essa realidade ganhou um rosto na Paraíba.

O soldado Ícaro Flávio, de apenas 30 anos, foi baleado durante uma ocorrência em Santa Rita. Socorrido para o Hospital de Trauma de João Pessoa, não resistiu aos ferimentos.

Ícaro saiu para trabalhar.

Não voltou para casa.

A ocorrência também terminou com um suspeito morto, seis pessoas detidas e outro homem ferido.

É nesse momento que o discurso eleitoral precisa encontrar a realidade.

Porque quando se fala em segurança pública, normalmente aparecem números de operações, prisões, armas apreendidas, viaturas entregues e policiais colocados nas ruas.

Mas existe uma pergunta que precisa ser feita:

O que acontece depois que o policial prende?

Essa é uma das maiores frustrações de quem está na linha de frente.

O policial passa horas em uma operação. Entra em uma área de risco. Enfrenta criminosos. Apreende armas e drogas. Prende suspeitos e entrega tudo ao sistema.

A partir dali, começa outra etapa.

E é justamente nesse ponto que surge aquilo que muitos profissionais enxergam como um verdadeiro efeito enxuga gelo.

Não porque o trabalho policial seja inútil.

Muito pelo contrário.

Mas porque uma prisão não significa necessariamente o fim da atividade criminosa.

Existem decisões judiciais, regras processuais, audiências de custódia, progressões de regime e outros mecanismos legais que fazem parte do sistema de Justiça. Em determinadas situações, pessoas investigadas ou condenadas podem retornar ao convívio social.

Quando existe reincidência, o problema volta para as ruas.

E quem estará novamente diante dele?

O policial.

A mesma viatura.

O mesmo território.

E, muitas vezes, o mesmo criminoso.

É justamente nesse ambiente que as facções criminosas encontraram espaço para crescer.

O crime organizado deixou de ser apenas uma questão de pequenos grupos disputando determinados pontos das periferias.

As facções passaram a atuar de maneira cada vez mais estruturada, buscando território, dinheiro, influência, recrutamento de jovens, controle de mercados ilícitos e diferentes formas de infiltração.

O enfrentamento, portanto, deixou de ser apenas uma questão de colocar mais policiais nas ruas.

É preciso inteligência.

É preciso investigação.

É preciso combater o dinheiro do crime.

É preciso fortalecer o sistema penitenciário.

É preciso impedir que as organizações criminosas continuem recrutando.

E é preciso integração entre as instituições responsáveis pela segurança e pela Justiça.

Porque o policial pode prender um integrante de uma organização criminosa.

Mas, se a estrutura continuar funcionando, outro ocupará o lugar.

É aí que a discussão eleitoral precisa ser mais profunda.

De que adianta fortalecer apenas a ponta de um sistema que precisa funcionar por inteiro?

Uma polícia forte precisa de armas adequadas.

Precisa de coletes.

Precisa de viaturas.

Precisa de tecnologia.

Mas precisa também de efetivo suficiente, remuneração compatível, carreira estruturada, assistência à saúde, proteção para a família e uma aposentadoria que não represente uma perda brutal na qualidade de vida.

Porque existe uma contradição que precisa ser enfrentada.

Durante anos, o policial pode aumentar sua renda por meio de plantões, escalas extras e outras atividades.

Mas também aumenta seu desgaste.

São noites mal dormidas.

Finais de semana longe da família.

Confrontos.

Ameaças.

Estresse.

Problemas físicos e emocionais.

E, depois de décadas, chega a aposentadoria ou reforma.

É nesse momento que surge outra pergunta:

quanto vale, afinal, uma carreira construída sob risco permanente?

Não se trata apenas de salário.

Trata-se de dignidade.

O policial não pode ser lembrado apenas quando falta segurança.

Não pode ser valorizado somente quando aparece uma operação de grande repercussão.

E não pode ser tratado como uma peça descartável de uma engrenagem que cobra resultados, mas não discute suficientemente as consequências humanas dessa profissão.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 mostra o tamanho do risco enfrentado pelas forças de segurança no país. Em 2025, foram registradas 6.602 mortes decorrentes de intervenções policiais no Brasil.

Por trás das estatísticas, entretanto, existem pessoas.

E a morte de Ícaro Flávio lembra que, na Paraíba, essa discussão não é abstrata.

É real.

É uma família que perdeu alguém.

É uma farda que ficou vazia.

É uma mãe, um pai, uma esposa, filhos ou familiares que esperavam aquele profissional voltar para casa.

Por isso, nas eleições de 2026, segurança pública precisa ser discutida de dentro para fora.

Os candidatos precisam dizer como pretendem combater o avanço das facções.

Como pretendem fortalecer a inteligência policial.

Como pretendem integrar segurança, investigação, Ministério Público, Judiciário e sistema penitenciário.

Como pretendem ampliar e distribuir adequadamente o efetivo.

E, principalmente, como pretendem cuidar de quem está na linha de frente.

Porque o eleitor quer segurança.

O policial também.

A diferença é que o cidadão espera que o Estado proteja sua vida.

O policial, muitas vezes, precisa arriscar a própria vida para proteger a do cidadão.

E quando ele prende alguém, o sistema precisa ser capaz de transformar aquela prisão em uma resposta efetiva contra o crime, e não permitir que a violência simplesmente se reorganize.

A eleição passa.

Os discursos passam.

Os governos mudam.

Mas o policial continua entrando na viatura.

Continua patrulhando.

Continua atendendo ocorrências.

Continua enfrentando criminosos.

E continua sem saber se voltará para casa.

Por isso, a pergunta que fica para os candidatos ao Governo da Paraíba não é apenas quem vai equipar melhor a polícia.

É:

quem vai construir uma política de segurança capaz de proteger a sociedade, combater as facções e, ao mesmo tempo, proteger o policial?

Porque entre assegurar a vida da sociedade e arriscar a própria, existe uma pergunta que não pode ser ignorada:

será que ainda vale a pena ser policial quando o preço de defender a sociedade pode ser a própria vida?

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Prego batido, ponta virada: Lucas fecha o time e a disputa pelo Governo da Paraíba entra em nova fase

 Lígia Feliciano completa a chapa de Lucas Ribeiro e coloca experiência política no jogo. Ao lado de Nayana Pontes e Diogo Cunha Lima, três vices revelam estratégias diferentes para uma eleição que promete ser disputada.

Por Adriano Lourenço

Prego batido, ponta virada.

Depois de semanas de especulações, nomes cotados, pressões partidárias e muita conversa de bastidor, o governador Lucas Ribeiro finalmente fechou a composição da chapa que buscará sua reeleição ao Governo da Paraíba.

E a escolha não foi pela novidade.

Lucas optou pela experiência de Lígia Feliciano, médica e ex-vice-governadora da Paraíba por dois mandatos. Com isso, a chapa governista ganha uma mulher que já conhece os corredores do poder, a administração pública e, principalmente, a dinâmica de uma eleição majoritária.

A escolha também encerra uma novela que teve vários personagens.

Durante semanas, circularam nomes como Adriano Galdino, Luciano Cartaxo, Wilson Filho, Eduardo Carneiro, Rafaela Camaraense, Maísa Cartaxo e a tenente-coronel Viviane Vieira. Em determinado momento, Viviane chegou a ser apontada como uma das possibilidades mais fortes, enquanto outros nomes também apareciam nas articulações.

Até mesmo Luana Motta, esposa do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, apareceu nas especulações, embora o próprio deputado tenha negado que ela estivesse sendo indicada para a vaga.

No final, o governador escolheu Lígia.

E essa escolha merece uma leitura diferente.

NÃO É UMA VICE DE PRIMEIRA VIAGEM

Lígia Feliciano não entra na chapa para aprender o caminho.

Ela já percorreu.

Médica formada pela Universidade Federal da Paraíba, com especialização em coração e pulmão artificial pelo Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, Lígia construiu trajetória profissional também na área hospitalar e educacional antes de ingressar diretamente na política.

Na política, foi vice-governadora em dois mandatos consecutivos: primeiro ao lado de Ricardo Coutinho e depois de João Azevedo.

Agora, anos depois de deixar o cargo, volta ao mesmo posto.

E isso produz uma diferença importante em relação às outras chapas.

Lígia já sabe o que significa ser vice-governadora.

Já conhece as responsabilidades do cargo, as limitações e também o espaço que um vice pode ocupar dentro de um governo.

Mas há outro componente político que não pode ser ignorado.

Seu marido, Damião Feliciano, é deputado federal e presidente estadual do União Brasil. O partido integra a Federação União Progressista com o PP, legenda de Lucas Ribeiro. Além disso, o filho do casal, Gustavo Feliciano, ocupa atualmente o Ministério do Turismo no governo Lula.

Portanto, Lígia não chega apenas com experiência pessoal.

Chega acompanhada de uma estrutura política familiar, partidária e institucional.

Isso não significa automaticamente transferência de votos.

Mas significa capital político.

E capital político, numa eleição majoritária, tem peso.

ENQUANTO ISSO, EFRAIM TAMBÉM APOSTOU EM UMA MULHER

Efraim Filho escolheu Nayana Pontes.

Advogada, presidente do PL Mulher em João Pessoa e esposa do deputado federal Cabo Gilberto Silva, Nayana já possui atuação política dentro do campo conservador e do próprio PL.

Sua trajetória eleitoral majoritária é diferente da de Lígia.

Nayana não carrega dois mandatos de vice-governadora.

Mas possui uma conexão direta com uma estrutura política que tem identidade própria e forte presença no eleitorado de direita.

E aqui aparece uma coincidência que merece ser observada.

Lucas escolhe uma mulher. Efraim também.

E isso acontece depois de uma discussão que nós já levantamos: a presença feminina nas eleições paraibanas.

A disputa pelo Governo do Estado não apresenta, até aqui, uma mulher como candidata titular ao Palácio da Redenção. Mas as mulheres passaram a ocupar espaço importante nas chapas majoritárias como candidatas a vice.

Será apenas coincidência?

Pode ser.

Mas também pode ser estratégia.

Em uma eleição na qual nenhum dos principais candidatos titulares é mulher, colocar uma mulher ao lado pode ajudar a construir uma imagem de representatividade e ampliar o diálogo com o eleitorado feminino.

A diferença está no perfil.

Lígia traz experiência de governo.

Nayana traz militância partidária e identificação com um campo político específico.

CÍCERO FOI POR OUTRO CAMINHO

Cícero Lucena decidiu não seguir a mesma estratégia.

Seu vice é Diogo Cunha Lima, empresário de Campina Grande e estreante numa disputa eleitoral majoritária.

Mas novamente existe uma diferença entre ser estreante e ser desconhecido.

Diogo é filho de Cássio Cunha Lima e neto do ex-governador Ronaldo Cunha Lima.

Seu sobrenome carrega uma história política que atravessa gerações na Paraíba.

Ao mesmo tempo, Diogo construiu uma trajetória empresarial antes de entrar diretamente na política. Durante a pré-campanha, Cícero destacou justamente essa combinação entre juventude, experiência empresarial e o peso político da família.

A escolha também atende a uma questão geográfica importante.

Cícero é de João Pessoa.

Diogo é de Campina Grande.

E o segundo maior colégio eleitoral da Paraíba não pode ser ignorado em uma disputa pelo Governo do Estado.

Portanto, Cícero leva para a chapa um jovem empresário, mas também uma ponte com Campina Grande e com uma das famílias políticas mais conhecidas do Estado.

TRÊS VICES, TRÊS ESTRATÉGIAS

É justamente aqui que a eleição começa a ficar interessante.

Lígia representa "experiência política e administrativa".

Nayana representa "militância partidária, presença feminina e conexão com o eleitorado conservador".

Diogo representa "renovação geracional, empresariado e tradição política familiar".

Nenhum desses elementos garante voto.

E essa talvez seja a principal questão.

Vice não é necessariamente puxador de votos.

Pode ser articulador.

Pode representar um segmento.

Pode equilibrar uma chapa.

Pode trazer estrutura partidária.

Pode ajudar em determinada região.

E pode, principalmente, transmitir ao eleitor uma mensagem que o candidato titular sozinho não conseguiria transmitir.

E O NAUFRÁGIO DOS OUTROS NOMES?

A novela da vice de Lucas Ribeiro também mostrou outra coisa: o tamanho da disputa interna dentro da base governista.

Se tantos nomes apareceram, é porque a vaga tinha valor político.

Adriano Galdino, Luciano Cartaxo, Wilson Filho, Eduardo Carneiro, Rafaela Camaraense, Maísa Cartaxo, Viviane Vieira, Lígia Feliciano e até especulações envolvendo Luana Motta passaram pelo radar político em diferentes momentos.

Mas nem todos tinham as mesmas condições.

Alguns tinham força eleitoral.

Outros tinham força partidária.

Alguns representavam regiões.

Outros carregavam experiência administrativa.

E havia aqueles que simplesmente poderiam agregar um segmento específico.

No final, Lucas escolheu um nome que reúne experiência, presença feminina, vínculo partidário e conhecimento direto do cargo.

Foi uma escolha pragmática.

Agora, a questão é saber se esse pragmatismo conseguirá virar voto.

O ELEITOR É QUEM VAI DAR A RESPOSTA

No papel, as três chapas agora estão completas.

Lucas Ribeiro e Lígia Feliciano.

Efraim Filho e Nayana Pontes.

Cícero Lucena e Diogo Cunha Lima.

Três composições diferentes.

Três histórias diferentes.

Três estratégias eleitorais.

E, principalmente, três respostas diferentes para uma mesma pergunta:

"o que o vice pode acrescentar à candidatura ao Governo da Paraíba"?

Porque o eleitor não vota apenas em um nome.

Vota em uma chapa.

E o vice, que muitas vezes aparece como coadjuvante durante a campanha, pode terminar sendo uma das peças mais importantes do jogo.

Prego batido, ponta virada.

A novela da escolha dos vices terminou.

Agora começa a parte mais difícil.

Fazer esses nomes deixarem de ser apenas composição de chapa e se transformarem em voto.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Farda nova, armas modernas e uma velha pergunta: quem está nas ruas para combater o crime na Paraíba?

 Déficit nas forças de segurança coloca em xeque o discurso eleitoral sobre investimentos e revela um problema que vai além das viaturas

Por Adriano Lourenço

Segurança pública foi um dos assuntos presentes no primeiro debate entre os candidatos ao Governo da Paraíba. E um dos discursos chamou atenção ao destacar uma polícia equipada, com armamentos, coletes balísticos, viaturas e fardamentos novos.

Tudo isso é importante.

Mas existe uma pergunta que não pode ficar de fora:

e o efetivo?

Porque não adianta ter viatura nova se não houver policiais suficientes para colocá-la nas ruas. Não adianta ter armamento moderno se faltam homens e mulheres para fazer o patrulhamento. E não adianta apresentar uma estrutura operacional cada vez melhor se o profissional que está na ponta continua enfrentando problemas de remuneração.

Um levantamento sobre a segurança pública mostra que a Paraíba tinha, em 2025, 10.309 policiais militares na ativa para um efetivo previsto de 18.935.

Isso significa apenas 54,4% do quadro previsto.

E o problema também aparece na Polícia Civil, responsável pela investigação e pela polícia judiciária.

São apontados 2.169 policiais para um quadro previsto de 6.300, aproximadamente 34,4% do efetivo.

E aqui está uma questão que precisa entrar de verdade na campanha eleitoral:

como combater o crime organizado com forças de segurança que ainda trabalham abaixo do efetivo previsto?

Porque a criminalidade também mudou.

A Paraíba convive com investigações envolvendo organizações criminosas e disputas territoriais entre grupos como o Comando Vermelho e a Okaida/Nova Okaida, com investigações apontando atuação em diferentes municípios paraibanos.

Não estamos falando apenas de pequenos grupos espalhados.

Estamos falando de organizações que disputam território, movimentam dinheiro, distribuem drogas e criam redes de atuação.

E para enfrentar isso, não basta equipamento.

É necessário efetivo, inteligência, investigação, tecnologia e valorização profissional.

O salário que não aparece na entrega da viatura

Durante um debate, é fácil mostrar aquilo que pode ser fotografado.

A viatura.

A arma.

O colete.

A farda.

Mas existe algo que não aparece nessas cerimônias:

o contracheque do policial.

Os dados do levantamento apontam uma remuneração média bruta de R$ 7.832,83 para os policiais militares paraibanos, enquanto a média nacional seria de R$ 10.329,61.

Entre soldados, a média indicada é de R$ 5.180,30.

E aqui precisamos fazer uma pergunta simples:

uma polícia pode ser considerada plenamente valorizada apenas porque está bem equipada?

É claro que não.

Equipamento é fundamental.

Mas quem veste a farda também precisa ser valorizado.

O policial enfrenta risco, trabalha em escalas, atende ocorrências violentas e muitas vezes precisa recorrer a serviços extraordinários para melhorar a renda.

Então, quando se fala em segurança pública, precisamos falar também de salário.

E quando chega a aposentadoria?

Existe ainda uma questão pouco discutida.

Depois de décadas de serviço, muitos policiais chegam à reserva e enfrentam uma redução significativa na renda, especialmente com a perda de parcelas vinculadas ao serviço ativo.

E não é raro que profissionais experientes retornem à atividade por meio da Guarda Militar da Reserva.

Não há problema algum em alguém querer continuar trabalhando.

A pergunta é outra:

isso é uma escolha ou, em alguns casos, uma necessidade para complementar a renda?