quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Lula muda o discurso, mas o segundo turno começa com uma conta difícil

 Primeiro turno expõe perda de espaço regional, avanço de Flávio e obriga o governo a rever discurso, alianças e comunicação

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 colocou Lula diante de uma situação que, durante boa parte da campanha, parecia pouco provável: o presidente terminou atrás de Flávio Bolsonaro.

Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula ficou com 45,16%. A diferença foi de pouco mais de 2,2 milhões de votos. Não é uma distância que encerra uma eleição, mas é suficiente para mudar completamente a estratégia das duas campanhas.

E talvez o dado que mais mereça atenção esteja fora dos percentuais dos dois candidatos: 33,47 milhões de eleitores não compareceram às urnas. A abstenção chegou a 21,08%.

É aí que começa uma das principais perguntas do segundo turno: quem são esses eleitores e o que poderá levá-los novamente às urnas?

O Nordeste continua sendo o principal território eleitoral de Lula. O presidente venceu nos nove estados da região e alcançou seus melhores percentuais no Piauí, com quase 71%, seguido por Bahia, Maranhão, Pernambuco, Ceará, Sergipe, Paraíba e Rio Grande do Norte.

Mas a fotografia nacional mudou.

Flávio venceu em 15 estados e no Distrito Federal. Teve resultados expressivos em Roraima, Rondônia, Santa Catarina, Mato Grosso, Acre, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. Em Minas Gerais, outro estado decisivo, também terminou à frente.

São Paulo chama atenção pelo tamanho do eleitorado. Flávio ultrapassou 12,9 milhões de votos no estado, enquanto Lula passou de 9,5 milhões. Minas Gerais também deu vantagem ao candidato do PL, assim como Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul.

O mapa mostra, portanto, que a disputa deixou de ser apenas uma questão de Nordeste contra o restante do país. Lula ainda possui uma vantagem importante em seu principal reduto, mas Flávio conseguiu transformar a direita em uma força eleitoral nacional.

E é justamente nesse cenário que Lula começa a mudar o tom.

O discurso sobre segurança pública ganhou espaço. O presidente passou a falar com maior ênfase em endurecimento contra criminosos, proteção do trabalhador, segurança e fortalecimento do sistema penitenciário.

A mudança chama atenção porque segurança pública esteve entre os temas mais explorados pela direita durante a campanha.

É legítimo perguntar se essa nova ênfase representa uma mudança programática ou também uma tentativa de responder a uma preocupação que apareceu nas urnas. A resposta, entretanto, caberá ao eleitor observar nos próximos dias: discurso de campanha é uma coisa; política pública concreta é outra.

O próprio Lula também fez uma autocrítica sobre a campanha. Depois do resultado, afirmou que foi a campanha menos organizada de sua trajetória desde 1989.

A declaração revela que o problema, pelo menos na avaliação do próprio presidente, não estaria somente nos adversários. Haveria também uma questão interna de comunicação, organização e estratégia.

E esse ponto ganha importância porque o governo tem uma dificuldade adicional: explicar aquilo que considera ter realizado e, ao mesmo tempo, apresentar uma proposta capaz de convencer quem ainda não decidiu.

Pesquisas realizadas antes do primeiro turno já mostravam uma divisão clara. Lula apresentava vantagem entre eleitores de menor renda, menor escolaridade, no Nordeste e entre católicos. Flávio tinha desempenho melhor entre eleitores de renda mais alta, no Sul e entre evangélicos.

Mas eleição não é fotografia de pesquisa. É urna.

E a urna mostrou que Flávio conseguiu avançar.

Outro dado que chama atenção está nas seções eleitorais instaladas em estabelecimentos penais. Presos provisórios têm direito ao voto porque não possuem condenação criminal definitiva. Os condenados definitivamente não votam.

Nessas seções específicas, Lula teve 72,98% dos votos válidos, contra 23,15% de Flávio. O número chama atenção, mas precisa ser tratado corretamente: não significa que toda a população carcerária brasileira tenha votado em Lula. Trata-se dos eleitores aptos a votar nas seções prisionais.

A pergunta seguinte é política: como cada candidato vai conversar com quem não votou?

A abstenção não pertence a Lula nem a Flávio. São milhões de brasileiros que, por diferentes motivos, não compareceram às urnas. Entre eles estão pessoas desinteressadas, impedidas de votar, que enfrentaram dificuldades para chegar ao local de votação ou simplesmente não se sentiram representadas.

Para Lula, recuperar parte desse eleitorado pode ser importante porque sua votação ficou concentrada em segmentos nos quais a abstenção historicamente pode pesar mais. Para Flávio, o desafio é manter a mobilização que o colocou na frente e, ao mesmo tempo, ampliar sua votação para além do eleitorado que já se identifica com a direita.

Há ainda outra disputa: os votos dos candidatos que ficaram pelo caminho.

Mais de nove milhões de votos foram destinados a outros nomes no primeiro turno. São eleitores que agora terão de escolher entre Lula e Flávio, votar em branco, anular ou, novamente, não comparecer.

E a política partidária já começou a se movimentar.

Flávio recebeu declarações de apoio de União Brasil, PP, Novo, Republicanos e Podemos, além dos apoios anunciados por Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Mas essas adesões não significam automaticamente que todos os eleitores dessas legendas seguirão a orientação nacional. Em vários estados, os interesses locais são diferentes.

Lula, por sua vez, precisa ampliar sua capacidade de articulação e buscar setores de partidos que não estão integralmente fechados com Flávio. PSD e MDB aparecem como espaços importantes dessa disputa, embora suas decisões e posicionamentos variem conforme o estado e a liderança regional.

No segundo turno, portanto, não basta repetir o primeiro.

Lula precisa explicar por que pretende continuar governando e apresentar o que pretende fazer daqui para frente. Flávio precisa transformar a vantagem eleitoral em uma mensagem capaz de chegar aos eleitores que ainda não estão definitivamente com a direita.

A disputa também deve passar pela economia, segurança, emprego, custo de vida, saúde, corrupção, relação com o Congresso e instituições.

E existe um eleitor que talvez seja o mais importante de todos: aquele que não está apaixonado por nenhum dos dois.

Esse eleitor pode não querer escolher entre passado e passado. Pode querer saber o que cada candidato fará no futuro.

O segundo turno começa, portanto, com uma diferença pequena entre os dois candidatos, mas com desafios muito diferentes.

Lula precisa recuperar terreno onde perdeu votos e ampliar alianças.

Flávio precisa consolidar a liderança e convencer além de sua base tradicional.

E os dois terão de disputar não apenas o voto do adversário, mas a atenção de milhões de brasileiros que, no primeiro turno, simplesmente decidiram não ir às urnas.

No dia 25 de outubro, a escolha será novamente do eleitor.

E desta vez, os números do primeiro turno já deixaram um recado claro: nenhuma candidatura pode tratar como garantido o voto que ainda não está na urna.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Conspiração ou traição? O que aconteceu com Cícero Lucena nas eleições para o Governo da Paraíba?

Resultado das urnas abre discussão sobre estratégia de campanha, atuação do grupo político, postura de Léo Bezerra e o futuro da família Lucena


Por Adriano Lourenço

A eleição acabou. O segundo turno não veio. E a pergunta que ficou, principalmente depois do resultado em João Pessoa, é direta: o que aconteceu com Cícero Lucena?

Conspiração? Traição política? Erro de estratégia? Ou simplesmente uma eleição em que as urnas disseram algo diferente daquilo que parte do ambiente político esperava?

Cícero terminou o primeiro turno em terceiro lugar, com 11,6% dos votos válidos, atrás de Efraim Filho, que obteve 24,18%, e de Lucas Ribeiro, reeleito governador com 64,30%.

O resultado contrariou a expectativa de quem ainda trabalhava com a possibilidade de uma segunda rodada entre os principais candidatos. Mas as pesquisas da reta final já apresentavam um cenário menos favorável a Cícero. Na Quest realizada nos dias 2 e 3 de outubro, Lucas aparecia com 52%, Efraim com 19% e Cícero com 13% das intenções de voto.

Ainda assim, foi João Pessoa que produziu uma das imagens mais fortes dessa eleição.

Cícero foi prefeito da Capital, deixou a prefeitura para disputar o Governo do Estado e construiu durante anos uma rede política na cidade. Mesmo assim, não conseguiu transformar esse histórico em liderança eleitoral na própria Capital.

E aqui começa uma pergunta que merece ser feita.

Onde estavam os votos da estrutura política construída durante os anos de prefeitura?

Onde estavam os vereadores que declararam apoio ao ex-prefeito?

E aqueles votos que, durante a campanha, eram tratados como parte da estrutura capaz de levar Cícero ao segundo turno?

Não se pode transformar essas perguntas em acusação sem provas. Mas também não se pode ignorar o resultado.

A política trabalha com números. E os números desta vez foram desfavoráveis a Cícero.

Mas existe outra pergunta que precisa entrar nessa análise: e o marqueteiro?

Será que a estratégia de comunicação adotada pela campanha foi adequada ao momento eleitoral?

Essa não é uma pergunta sobre culpa. É uma pergunta sobre estratégia.

Uma candidatura com a trajetória de Cícero Lucena precisava apresentar ao eleitor uma razão clara para escolhê-lo naquele momento. Experiência, cargos ocupados e história política fazem parte de uma biografia, mas não necessariamente funcionam como mensagem eleitoral.

Durante a campanha, Cícero repetiu argumentos relacionados à experiência, à gestão e à sua trajetória política. A pergunta é se essa comunicação conseguiu criar uma identidade eleitoral capaz de diferenciá-lo dos adversários.

Porque o eleitor não vota em currículo.

O eleitor vota em uma proposta, em uma identificação, em uma expectativa ou, muitas vezes, naquilo que entende ser melhor para o momento.

E pode existir aí um dos pontos que a campanha precisará avaliar.

Será que o discurso ficou repetitivo?

Será que faltou uma mensagem nova na reta final?

Será que a comunicação não conseguiu transformar a experiência de Cícero em uma proposta capaz de mobilizar o eleitor?

Ou será que, nos últimos dias, aconteceu aquilo que ninguém consegue medir completamente?

O eleitor chegou à urna e pensou: “É melhor mudar de lado porque a oferta está sendo melhor.”

Essa é uma possibilidade política, não uma conclusão.

E a força dessa hipótese está justamente no resultado.

Do outro lado, Efraim Filho conseguiu terminar em segundo lugar. Durante os debates, apresentou propostas e adotou, em determinados momentos, uma comunicação mais contida. Enquanto isso, Cícero carregava o peso de uma trajetória longa na política paraibana.

A eleição mostrou que experiência e estrutura não significam transferência automática de votos.

E existe ainda outro personagem nessa história: Léo Bezerra.

Em junho, o prefeito de João Pessoa dizia publicamente que apoiaria Cícero e que sua base estaria alinhada ao projeto do ex-prefeito. Na ocasião, chegou a afirmar: “campanha de Cícero é a campanha de Léo”.

Mas a política mudou de direção.

Em agosto, Léo Bezerra anunciou, juntamente com sua base de vereadores, apoio a Nabor Wanderley para o Senado. A articulação foi apresentada publicamente também como parte de um entendimento relacionado ao projeto de reeleição do prefeito em 2028.

Cícero, na época, adotou tom conciliador e disse respeitar a independência política de Léo.

Portanto, mais do que falar em “silêncio” de Léo, existe um fato político concreto: o apoio que começou alinhado a Cícero sofreu uma mudança de rota durante a própria eleição.

E isso merece ser analisado.

Porque Léo não estava sozinho.

Havia vereadores, lideranças comunitárias e integrantes da base municipal envolvidos na campanha. Em setembro, por exemplo, eventos do chamado Movimento 15 foram organizados por vereadores e lideranças que declaravam apoio a Cícero e ao projeto político apresentado ao eleitor.

Mas também houve mudança de posição dentro da Câmara.

O vereador Guga Moov Jampa, por exemplo, deixou o grupo de Cícero e declarou apoio a Lucas Ribeiro. Léo Bezerra, ao comentar a decisão, disse que respeitava a escolha do vereador e que havia tentado mantê-lo ao seu lado.

E aí aparece uma questão ainda mais delicada.

Durante uma eleição estadual, vereadores que também disputam seus próprios projetos eleitorais podem dividir sua atenção entre a candidatura majoritária e suas próprias campanhas para deputado estadual ou federal.

Isso não significa afirmar que abandonaram Cícero.

Mas significa perguntar: quanto da estrutura política estava realmente dedicada à candidatura ao Governo e quanto estava concentrada na sobrevivência eleitoral de cada liderança?

Essa pergunta precisa ser respondida pelos próprios atores políticos.

Porque, na política, apoiar é uma coisa.

Transferir votos é outra.

E garantir que uma estrutura política trabalhe efetivamente por uma candidatura é outra completamente diferente.

Talvez esteja aí parte da explicação para o que aconteceu.

Ou talvez não.

Mas a urna deixou uma informação impossível de ignorar: a força política de Cícero em João Pessoa não se converteu no resultado que sua candidatura precisava.

E isso também atinge a família.

Mersinho Lucena, filho de Cícero, não conseguiu renovar o mandato de deputado federal e terminou como suplente.

Para uma família que possui uma trajetória extensa na política paraibana, o resultado representa um novo momento.

E a pergunta agora é: o que vem depois?

Cícero ficará fora de um mandato eletivo.

Mersinho também não estará, neste momento, entre os titulares da bancada federal.

Léo Bezerra permanece com a Prefeitura de João Pessoa e já tem 2028 no horizonte.

E, a partir daí, a política começa novamente a fazer aquilo que sabe fazer melhor: conversar nos bastidores.

Será que os Ribeiro e os Bezerra estarão juntos?

Será que haverá uma nova composição?

Não há, neste momento, elementos públicos suficientes para afirmar que exista algum acordo secreto entre esses grupos. O que existe são movimentos políticos registrados, mudanças de apoio e interesses eleitorais que naturalmente passam a mirar 2028.

E 2028 pode trazer uma disputa completamente diferente.

Novos nomes podem aparecer.

Parlamentares podem entrar na disputa.

Grupos que hoje estão juntos podem se separar.

Grupos que hoje estão separados podem voltar a conversar.

É cedo para dizer quem estará de cada lado.

Mas não é cedo para observar os movimentos.

A eleição de 2026 deixou uma lição importante para todos os grupos políticos da Paraíba: pesquisa não é urna, avenida cheia não é voto e apoio declarado não significa necessariamente transferência de eleitor.

Cícero tinha história.

Tinha experiência.

Tinha estrutura.

Tinha aliados.

Tinha uma campanha.

Mas tinha também um desafio: convencer o eleitor de que toda essa trajetória representava o melhor caminho naquele momento.

E a urna respondeu.

Agora caberá ao próprio grupo analisar onde a estratégia funcionou, onde não funcionou e, principalmente, se o problema esteve na mensagem, na estrutura política, na articulação ou na combinação de todos esses fatores.

Conspiração ou traição?

Talvez a resposta não esteja em Judas.

Talvez esteja na urna.

Porque, entre o palanque e o voto, existe uma distância que nenhuma estrutura política consegue controlar completamente.

E foi exatamente nessa distância que Cícero Lucena perdeu a eleição.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Lula e as frases que ficam: entre promessas, mudanças e discursos que provocam reação

O que se diz no palanque passa rápido. O que fica na memória da sociedade é o que realmente importa — e nem sempre é o que se gostaria. Veja as contradições, as promessas que mudaram de rumo e as perguntas sem resposta: o que Lula diz, o que faz e o que o Brasil não esquece.


Por Adriano Lourenço

Contradições que marcaram o mandato


Tem político que muda de opinião. Tem político que muda de discurso. E tem discurso que, mesmo depois de terminado, continua circulando — às vezes contra quem o pronunciou. Luiz Inácio Lula da Silva conhece bem essa realidade. Nos últimos anos, algumas de suas falas passaram a ser lembradas não pelo que diziam, mas pela distância entre o prometido e o praticado.

O exemplo mais evidente foi a indicação ao Supremo Tribunal Federal. Durante a campanha de 2022, Lula afirmou: "Colocar um amigo na Suprema Corte é um retrocesso. A escolha tem que ser por currículo, não por amizade". Em junho de 2023, indicou Cristiano Zanin — seu advogado pessoal durante toda a Lava Jato, cuja esposa é afilhada do presidente. Questionado, disse: "O Zanin não era amigo, era meu advogado". A distinção não convenceu parte da sociedade, que viu critérios pessoais sobrepujarem a independência prometida.
A mesma inversão aconteceu em outras áreas: a taxa das blusinhas foi criada e depois revogada; nas apostas esportivas, o governo regulamentou e arrecadou bilhões, agora Lula defende a proibição total; na segurança, primeiro atribuiu crimes à falta de oportunidade e depois passou a defender medidas mais duras, sem explicar o que mudou de forma concreta.

A polêmica de Nossa Senhora Aparecida


Na reta final das eleições, circulou a informação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A acusação foi desmentida pelo próprio candidato e pela Igreja Católica. Mesmo assim, Lula repetiu a afirmação em ato público e na entrevista à Band: "Mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável. Enquanto eu for presidente, ela será a padroeira. Quem não quiser, que mude do Brasil". Quando a jornalista Adriana Araújo lembrou que se tratava de notícia falsa, respondeu: "Eu não sei se foi fake news". A resposta gerou críticas: em vez de esclarecer, manteve a polêmica em curso. O ministro André Mendonça, do TSE, chegou a ordenar a remoção de conteúdos, decisão depois revista pelo ministro Flávio Dino. O episódio mostrou como declarações podem ganhar força e circular amplamente, mesmo sem correspondência com os fatos.

Carta Programa: promessas e explicações que faltam


No documento entregue ao TSE, o candidato promete investir R$ 11 bilhões em segurança pública, com a transformação de 138 presídios estaduais em unidades de segurança máxima, instalação de equipamentos de monitoramento e criação do Ministério da Segurança Pública. O que não é esclarecido é de onde virão os recursos: aponta bens apreendidos do crime e reestruturação de gastos, mas não detalha quais despesas serão reduzidas nem garante que os valores apreendidos serão exclusivamente direcionados à segurança. Sobre os presídios, não explica como será a gestão compartilhada com os estados nem os custos de manutenção. A criação do ministério também já havia sido prometida em 2022 e não cumprida. Programas de ressocialização, presentes em discursos anteriores, praticamente não aparecem no texto.

Perguntas sem resposta na entrevista à Band


Na entrevista ao Canal Livre, em 27 de setembro, diversos pontos levantados pela equipe de jornalismo não receberam respostas concretas: sobre a origem exata dos R$ 11 bilhões, não houve detalhamento de cortes ou remanejamentos; sobre investigações envolvendo o círculo familiar, limitou-se a dizer que não interferiu, sem responder pontos específicos; sobre a presença da lobista Roberta Luchsinger em encontros oficiais, disse não a conhecer, apesar de registros fotográficos; sobre a redução da violência, citou números de apreensões, mas não apresentou projeção de queda nos índices criminais.

Frases que ficam e o recado sobre as eleições


Algumas declarações ganharam repercussão negativa e permanecem na memória do eleitor: chamou os homens de "covardes" por evitarem o exame de próstata e disse que mulheres "aprendem a tomar toque desde pequenas"; afirmou que "nenhuma mulher quer namorar um ajudante geral"; e agradeceu à África por "tudo o que foi produzido durante 350 anos de escravidão". Promessas como picanha e cervejinha, de 2022, agora dividem espaço com canetas emagrecedoras e medicamentos gratuitos pelo SUS.

A pergunta que não sai da cabeça: o que de fato chegou à vida do brasileiro?

Neste domingo, os brasileiros vão às urnas escolher o rumo do país. É o momento de avaliar não apenas o que se diz no palanque, mas o que se faz na prática — de comparar a palavra empenhada com a realidade entregue. A política tem memória: a taxa fica registrada, a promessa fica registrada, a frase também. O que se fala dura minutos; o que fica define a escolha de cada cidadão. Que cada voto reflita o que você realmente quer para o Brasil.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Quando o apoio muda de lado, quem está negociando o quê?

A sucessão de mudanças de apoio entre prefeitos paraibanos na reta final da eleição está colocando em evidência a força das articulações políticas que envolvem o governador Lucas Ribeiro, o presidente da Câmara Federal, Hugo Motta, o deputado Aguinaldo Ribeiro e outras lideranças do grupo governista. Enquanto 13 prefeitos anunciam a saída do apoio a Veneziano Vital do Rêgo em apenas uma semana, o cenário levanta uma pergunta que permanece nos bastidores: o que está levando essas lideranças a mudar de lado justamente neste momento da campanha?

Por Adriano Lourenço

De repente, tudo muda.

Prefeitos que estavam em um palanque aparecem no outro. Lideranças que defendiam determinada candidatura passam a defender o adversário. E algumas dessas mudanças acontecem justamente quando a eleição entra na reta decisiva.

Na Paraíba, a sequência de adesões ganhou força nos últimos dias. Segundo informações divulgadas pelo grupo governista, 13 prefeitos deixaram o apoio ao senador Veneziano Vital do Rêgo em apenas uma semana e passaram a declarar voto em João Azevêdo e Nabor Wanderley. Entre os movimentos recentes estão os prefeitos de Gurinhém e São João do Tigre.

Em Santa Rita, o prefeito Jackson Alvino também deixou de apoiar Veneziano para aderir a Nabor Wanderley, passando a apoiar a chapa governista para o Governo e o Senado.

A questão que surge não é apenas por que esses prefeitos mudaram de posição.

A pergunta é: o que está acontecendo nos bastidores?

Não existe, até o momento, prova pública de que dinheiro do Banco Master tenha sido utilizado para comprar apoio político de prefeitos paraibanos. Essa afirmação não pode ser feita sem documentos que a sustentem.

Mas existe um cenário político que merece ser observado.

De um lado está o governador Lucas Ribeiro, candidato à reeleição. De outro, Nabor Wanderley, candidato ao Senado e pai de Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados.

E, nesse mesmo campo político, está Aguinaldo Ribeiro, deputado federal e tio de Lucas Ribeiro. A aproximação política entre Hugo Motta e Aguinaldo Ribeiro faz parte das articulações em torno do projeto governista.

É uma composição que reúne Governo do Estado, Presidência da Câmara Federal, representação no Congresso e uma ampla rede de prefeitos.

Para qualquer prefeito, trata-se de uma estrutura política com capacidade de articulação estadual e federal.

Isso, por si só, não representa irregularidade.

Prefeitos são livres para escolher seus candidatos. Parlamentares podem construir alianças. Governadores podem buscar apoio. Lideranças podem mudar de posição.

A questão é saber onde termina a articulação política legítima e onde começa a barganha.

E essa discussão ganhou outro ingrediente: o Banco Master.

Mensagens analisadas pela Polícia Federal apontaram que Hugo Motta pediu a Daniel Vorcaro a liberação de um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões para uma empresa de sua cunhada. O pedido ocorreu em 2024, antes de Motta assumir a presidência da Câmara. As mensagens ainda estavam sob análise da Polícia Federal quando a informação foi divulgada.

Mais recentemente, Hugo Motta recorreu à Justiça Eleitoral contra uma propaganda de Veneziano que perguntava quem seria o candidato do Banco Master na Paraíba. Motta alegou que a peça fazia uma associação indevida entre o banco, supostos pagamentos por apoios políticos e a candidatura de Nabor Wanderley.

A Justiça Eleitoral também concedeu direito de resposta a Motta em outra ação relacionada a propaganda que mencionava o Banco Master.

E, nesta quinta-feira, 24 de setembro, a assessoria jurídica de Veneziano protocolou uma ação de investigação judicial eleitoral contra Hugo Motta e Nabor Wanderley, fazendo alegações relacionadas ao trânsito de recursos e às relações de Motta com Vorcaro. São alegações apresentadas pela campanha de Veneziano e que ainda dependem da análise da Justiça Eleitoral.

Portanto, é preciso separar as coisas.

A existência de mensagens envolvendo Vorcaro e Hugo Motta é um fato divulgado a partir da investigação.

A existência de mudanças de apoio de prefeitos também é um fato.

A aproximação política entre os grupos de Hugo Motta e Aguinaldo Ribeiro também é pública.

Mas isso não significa, automaticamente, que exista uma relação entre o caso Banco Master e a mudança de posição dos prefeitos.

Essa ligação ainda precisaria ser comprovada.

E é justamente aí que está a questão.

De um lado, o senador Veneziano Vital do Rêgo, que busca a reeleição.

Do outro, uma estrutura política que reúne o governador Lucas Ribeiro, o presidente da Câmara Federal, Hugo Motta, o deputado federal Aguinaldo Ribeiro, a senadora Daniela Ribeiro e o ex-governador João Azevedo.

Uma estrutura que reúne Governo do Estado, Câmara Federal, Senado, Congresso Nacional e uma extensa rede de prefeitos.

Agora vem a pergunta:

há equilíbrio para que as palavras de compromisso dadas ontem por prefeitos continuem valendo hoje?

Porque o que estamos acompanhando é uma sucessão de mudanças.

Prefeitos que ontem declaravam apoio a Veneziano agora aparecem ao lado de Nabor, João Azevedo e Lucas Ribeiro.

O prefeito pode mudar.

A liderança pode rever sua estratégia.

A aliança pode ser desfeita.

Tudo isso faz parte da democracia.

Mas quando tantas mudanças acontecem em um intervalo tão curto, especialmente na reta final de uma eleição, a sociedade tem o direito de perguntar o que motivou cada decisão.

Foi convicção?

Foi estratégia?

Foi aproximação administrativa?

Foi uma perspectiva de futuro?

Ou existem negociações que o eleitor ainda não conhece?

São perguntas, não acusações.

Porque política sempre foi feita de negociação.

Prefeito precisa de governador. Governador precisa de prefeitos. Deputado precisa de base. Senador precisa de votos. Municípios precisam de recursos e Brasília precisa das bancadas.

O problema começa quando o cidadão não consegue enxergar onde termina o interesse público e onde começa o interesse particular.

No passado, compromisso político era muitas vezes simbolizado pelo aperto de mão.

Olho no olho.

Palavra dada.

Hoje, o eleitor precisa de mais do que um aperto de mão.

Precisa saber o que foi combinado antes dele.

Porque quem está na rua vê o palanque, a fotografia, o vídeo e o discurso.

Mas não vê a reunião fechada.

Não ouve a conversa reservada.

Não sabe quais compromissos foram assumidos.

E talvez essa seja uma das perguntas mais importantes desta eleição:

quando um prefeito muda de lado, mudou a convicção ou mudou a oportunidade?

A resposta precisa vir dos próprios envolvidos.

Ao jornalismo cabe perguntar, investigar, confrontar versões e apresentar os fatos.

Ao eleitor cabe observar.

Porque alianças podem mudar.

A política pode mudar.

Mas compromisso público deveria continuar tendo valor.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

PCC, Comando Vermelho e a pergunta que o Brasil precisa responder

Enquanto 14 países se unem aos Estados Unidos em medidas contra 24 organizações criminosas, Brasil mantém sua própria estratégia jurídica. A questão que permanece é outra: por que, mesmo com leis, prisões, polícia e programas sociais, o crime organizado continua avançando?


Por Adriano Lourenço

O combate ao crime organizado voltou ao centro do debate internacional nesta terça-feira (22). Os Estados Unidos e outros 14 países do continente anunciaram medidas coordenadas contra 24 organizações criminosas classificadas como narcoterroristas, entre elas o Primeiro Comando da Capital, o PCC, e o Comando Vermelho. A iniciativa prevê, de acordo com as leis de cada país, bloqueio de bens, restrições de vistos e imigração e responsabilização de pessoas que ofereçam apoio material ou logístico às organizações.

O Brasil não aderiu à coalizão. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a rejeitar a classificação americana e defendeu que o enfrentamento ao crime organizado seja feito pelo próprio país, com cooperação internacional, inteligência e respeito à soberania brasileira.

Mas existe uma questão que ultrapassa a disputa entre Lula e Donald Trump, direita e esquerda, governo e oposição.

O brasileiro quer saber por que o crime organizado continua crescendo.

PCC e Comando Vermelho não são apenas nomes associados ao tráfico de drogas. As organizações são investigadas e apontadas em diferentes estados por atividades como tráfico, extorsão, homicídios, lavagem de dinheiro, controle territorial e outras formas de criminalidade. O próprio Estado brasileiro reconheceu a necessidade de novas ferramentas: em março deste ano entrou em vigor o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, que criou novos crimes relacionados ao domínio social estruturado e estabeleceu mecanismos mais severos contra organizações ultraviolentas.

Então, onde está o problema?

Será que faltam leis?

Será que faltam policiais?

Será que falta investigação?

Será que falta integração entre as forças de segurança?

Ou será que o problema está na dificuldade de atingir a estrutura financeira, logística e territorial das organizações?

O próprio histórico brasileiro mostra que prender integrantes não significa necessariamente desmontar uma organização. Quando uma liderança é retirada, outras pessoas podem ocupar o espaço deixado. É justamente por isso que o combate ao crime organizado exige mais do que prisões isoladas: exige inteligência, investigação financeira, integração entre instituições, controle territorial e capacidade de impedir que a organização continue funcionando de dentro ou de fora dos presídios.

O Atlas da Violência 2025, produzido pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, chama atenção para uma realidade importante: mesmo com a redução dos homicídios, as facções criminosas continuam expandindo sua atuação e redesenhando a geografia do crime no país. O estudo também destaca a importância da inteligência e da integração entre diferentes órgãos para atingir estruturas criminosas.

E há outro problema que não pode ser colocado debaixo do tapete: a violência contra a mulher.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 aponta que os dados de 2025 registraram a menor taxa de mortes violentas desde 2012, mas, ao mesmo tempo, convivem com crescimento dos feminicídios e recorde de letalidade policial. Ou seja, os números não permitem uma leitura simples de que tudo piorou ou tudo melhorou. Há avanços em determinados indicadores e problemas graves em outros.

E é justamente aí que o debate político precisa sair do discurso eleitoral.

A direita costuma defender maior rigor penal, fortalecimento das polícias e redução de benefícios para criminosos. A esquerda enfatiza políticas sociais, educação, emprego, redução da desigualdade e prevenção.

Mas o Brasil já possui programas sociais, políticas educacionais, forças policiais, Ministério Público, Judiciário, sistema penitenciário e legislação penal.

O Pé-de-Meia, por exemplo, foi criado para estimular a permanência de estudantes no ensino médio. No Distrito Federal, dados divulgados pelo Ministério da Educação apontaram queda de 24% no abandono escolar após dois anos do programa.

Então a pergunta precisa ser mais profunda.

Se existe política social, por que alguns jovens continuam sendo atraídos pelo crime?

Se existe polícia, por que as organizações continuam se reorganizando?

Se existem leis, por que ainda existem estruturas criminosas capazes de controlar territórios?

Se existem prisões, por que determinados grupos continuam operando?

E se existe Justiça, por que a população ainda convive diariamente com medo, violência e sensação de insegurança?

Não existe resposta simples.

Também seria equivocado dizer que o Estado não combate o crime. Operações policiais, investigações, bloqueios patrimoniais e prisões acontecem diariamente. Nesta semana, por exemplo, uma operação no Ceará cumpriu mandados contra suspeitos de integrar o Comando Vermelho e bloqueou cerca de R$ 70 milhões em bens e contas investigados.

O problema é saber se essas ações conseguem atingir o núcleo econômico e estrutural das organizações ou apenas substituir aqueles que foram presos.

E existe ainda uma discussão que precisa ser feita com responsabilidade: a diferença entre punir criminosos e abandonar princípios constitucionais.

O direito de defesa não foi criado para proteger o crime. Foi criado para impedir que alguém seja condenado sem o devido processo legal. A Constituição estabelece garantias individuais, mas também determina tratamento rigoroso para crimes como terrorismo, tráfico de drogas e crimes hediondos.

Portanto, o desafio não deveria ser escolher entre segurança e direitos.

O desafio é conseguir fazer as duas coisas funcionarem.

E talvez esteja aí a maior cobrança que o cidadão deve fazer aos candidatos, principalmente em um ano eleitoral.

Não basta dizer que vai combater o crime.

É preciso explicar como.

Quantos policiais?

Qual inteligência?

Qual integração?

Como atingir o dinheiro das facções?

Como impedir que presídios sejam centros de comando?

Como proteger comunidades dominadas pelo medo?

Como reduzir o recrutamento de jovens?

Como melhorar a escola?

Como criar oportunidades reais de trabalho?

E, principalmente, como medir se aquilo que foi prometido realmente funcionou?

Porque o brasileiro já ouviu muitas promessas de segurança pública.

O que falta agora é resultado.

E talvez exista uma última pergunta, ainda mais incômoda.

Se um país espera que seus jovens estudem, trabalhem, respeitem as instituições e construam uma vida dentro da legalidade, que exemplo estão oferecendo aqueles que ocupam posições de poder?

Um jovem observa a polícia.

Observa o criminoso.

Observa o professor.

Observa o político.

Observa o juiz.

Observa o empresário.

Observa os representantes que escolhemos pelo voto.

E aprende também com aquilo que vê.

Por isso, combater o crime não significa apenas prender quem comete o delito. Significa também construir um Estado capaz de demonstrar que a legalidade funciona, que o trabalho produz resultado, que a educação abre caminhos e que ocupar uma função pública exige responsabilidade.

No fim, a discussão sobre PCC, Comando Vermelho e narcoterrorismo talvez seja apenas uma parte de uma pergunta muito maior:

que país estamos construindo para a próxima geração?

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

STF encerra sessão sem julgar mérito do Caso Master; divisão entre ministros fica exposta

Brasília — O Supremo Tribunal Federal encerrou a sessão desta terça-feira, 15 de setembro, sem julgar o ponto central do Caso Banco Master: a possível abertura de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes. Em vez de avaliar o conteúdo das mensagens trocadas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, os ministros debateram durante horas questões de procedimento e se o processo deve ser reunido ao que envolve o ministro André Mendonça.


Por Adriano Lourenço

Votação provisória: separação dos processos prevalece por 4 a 3


O placar provisório foi favorável à manutenção dos processos em tramitação separada. Votaram nesse sentido os ministros Edson Fachin, André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia. Defendiam a reunião dos feitos Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin. O ministro Flávio Dino apresentou pedido de vista, o que suspendeu a discussão. Dias Toffoli declarou-se suspeito e Kassio Nunes Marques considerou-se impedido; ambos não participaram da votação.
A divergência central reside justamente na conexão — ou na ausência dela — entre os fatos analisados. Os que defendem a reunião dos processos sustentam haver elementos e provas comuns aos dois casos. Já a posição contrária entende que os objetos investigativos são distintos e que a tramitação separada é a medida adequada. A questão permanece aberta.
A controvérsia levanta uma pergunta central: a reunião de processos envolvendo ministros diferentes deve ocorrer apenas quando houver vínculo jurídico comprovado entre fatos ou provas, ou pode ser adotada por conveniência processual? A medida pode ter amparo legal quando existir conexão real, mas também é legítimo questionar se ela contribui para a clareza das apurações ou, ao contrário, confunde responsabilidades e dificulta a análise individualizada dos fatos.

O embate entre os ministros molda o debate

Durante a sessão, Alexandre de Moraes afirmou que André Mendonça teria utilizado a Polícia Federal (PF) para incluí-lo em delação oferecida por Daniel Vorcaro, classificando a iniciativa como politicamente motivada. Mendonça rebateu as acusações e explicou que requisitou o relatório da PF no exercício de suas atribuições legais.
Moraes também sustentou não haver pedido formal da PF nem da Procuradoria-Geral da República (PGR) para a abertura de investigação contra ele. O ministro Edson Fachin, por sua vez, apresentou entendimento diverso, segundo o qual o STF pode determinar a continuidade de apuração independentemente de provocação externa, quando houver elementos que a justifiquem.
O foco da sessão deslocou-se, assim, do conteúdo das mensagens para a validade dos próprios procedimentos. Isso expõe um ponto estrutural ainda sem resposta: quando um ministro é citado em elementos de investigação que chegam ao próprio tribunal, a quem cabe conduzir a apuração? Ao ministro que recebe os autos? À Presidência? Ao Ministério Público? Ou a um mecanismo desenhado para minimizar risco de conflito de interesses?

A Polícia Federal no centro da disputa institucional


Os relatórios produzidos pela PF tornaram-se peça central do debate. Parte das informações chegou a ministros antes de decisão colegiada, o que suscitou questionamentos sobre os limites da atuação da instituição quando seus trabalhos envolvem membros da mais alta Corte do país.
Não se trata de hierarquia: a PF não está acima do STF, assim como o STF não substitui a PF no exercício de suas funções investigativas. O que está em jogo é a transparência e o controle sobre o fluxo de informações. É preciso distinguir apoio institucional ou segurança de atuação próxima a gabinetes ministeriais que possa confundir linhas de comando e de responsabilidade.
Afirmações sobre a existência de uma "estrutura paralela" na PF carecem, até o momento, de prova suficiente. O debate relevante é outro: há mecanismos capazes de garantir que documentos e dados de investigação circulem apenas por canais oficiais, com motivação registrada e acesso controlado?

Vorcaro: preso, com colaboração rejeitada, mas com dados ainda relevantes


Daniel Vorcaro segue detido na Superintendência da PF em Brasília. Suas propostas de colaboração premiada foram rejeitadas pela PF e pela PGR, que entenderam não haver elementos novos nem reconhecimento de autoria de crimes. Isso, contudo, não esvazia o material apreendido em seus dispositivos eletrônicos, que continua sendo utilizado em diferentes frentes investigativas.
Versões preliminares da delação mencionaram nomes de pessoas ligadas aos ministros Luiz Fux e Kassio Nunes Marques; tais referências foram retiradas da versão final encaminhada às autoridades. Até o momento, não há acusação formal de crime ou de favorecimento direto em desfavor de nenhum dos dois. É fundamental separar contatos, menções e trocas de mensagens de efetiva prática de ilícito: um fato não implica, por si só, o outro.

Outros envolvidos e decisões de não participação


Além de Toffoli e Nunes Marques, que se afastaram por suspeição e impedimento, respectivamente, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, foi mencionado em mensagens apreendidas. Gonet informou ter encontrado Vorcaro apenas uma vez, em evento social em Londres, em abril de 2024, em contato breve e sem conteúdo profissional; confirmou ainda uma saudação telefônica intermediada por advogado. O Conselho Superior do Ministério Público Federal agendou análise do tema para 25 de setembro. A medida não constitui, por si só, reconhecimento de irregularidade.

O "mal-estar cívico" e a credibilidade da Corte


A ministra Cármen Lúcia, ao votar pela separação dos processos, chamou atenção para o impacto externo da disputa. Lamentou a exposição negativa do STF e afirmou que a Corte, guardiã da Constituição, tem gerado "mal-estar cívico" na sociedade. A observação ganha relevo por ocorrer em sessão transmitida ao vivo, marcada por interrupções e confrontos entre pares.
A pergunta que fica é: qual imagem a sociedade recebe quando os ministros dedicam tempo maior a debater uns contra os outros do que a decidir o mérito de questões que envolvem investigação? A divergência é inerente ao colegiado; o que se questiona é se os conflitos institucionais estão sendo conduzidos de forma a preservar a confiança nas instituições.

Adiamento e calendário eleitoral


Com o pedido de vista de Flávio Dino, a deliberação está suspensa por até 90 dias. Há previsão de sessão para 23 de setembro, mas sua confirmação e a inclusão do tema em pauta dependem da tramitação processual e da Presidência do Tribunal.
A questão insere-se num contexto de aproximação das eleições de 2026. Isso não significa que decisões devam ser influenciadas por calendário político; significa, apenas, que cada movimento institucional passa a ser observado com ainda mais atenção pela sociedade.

Conclusão: quem fiscaliza os guardiões?


A sessão deixou mais perguntas do que respostas. O STF precisa definir se investiga seus próprios membros quando surgirem indícios; quem conduz essas apurações; quando processos podem ser reunidos; onde termina o trato institucional e começa a proximidade pessoal; e como garantir que dados de investigação circulem de forma controlada.
Acima de tudo, a sociedade cobra clareza: a Constituição designa o STF por seu guardião, mas quais instrumentos asseguram o cumprimento de regras pelos próprios ministros quando a controvérsia os envolve diretamente?
Divergências não enfraquecem uma Corte; a falta de procedimentos claros e a exposição de conflitos pessoais, sim. O Caso Master está longe de encerrar. Antes de se tomar partido ou definir culpados, é necessário aguardar provas, documentos e decisões fundamentadas. A toga não exime ninguém do cumprimento da Constituição; ao contrário, quanto maior a autoridade, maior a responsabilidade perante a lei e perante a sociedade.